Com base na cartilha da Política Nacional de Humanização (PNH), o acolhimento com avaliação e classificação de risco constitui-se como eixo fundamental para a reorganização dos serviços de urgência e emergência. No contexto respiratório — que engloba a crise asmática e o broncoespasmo, a exacerbação do DPOC, a insuficiência respiratória aguda (IRA), o tromboembolismo pulmonar (TEP) entre outros — essa estrutura assume caráter ainda mais crítico, pois a deterioração da função ventilatória pode ser rápida e irreversível, tornando o tempo um determinante essencial do prognóstico.
O acolhimento é definido como uma ação tecnoassistencial que ultrapassa a ideia de recepção ou triagem administrativa, configurando-se como postura ética no processo de trabalho em saúde. Ele pressupõe a mudança na relação entre profissionais e usuários, reconhecendo o paciente como sujeito ativo no cuidado e valorizando suas necessidades, saberes e contexto social.
No cenário respiratório, o acolhimento ganha uma dimensão específica e urgente: muitas vezes o paciente chega com intensa dispneia, incapaz de completar frases, ou com alteração do nível de consciência por hipoxemia — tornando a observação clínica imediata e a escuta ativa do acompanhante ferramentas indispensáveis da abordagem inicial. Sinais como uso de musculatura acessória, cianose, agitação psicomotora e incapacidade de falar em frases completas devem ser reconhecidos de imediato como marcadores de gravidade.
⚠️ Atenção nas Emergências Respiratórias
O acolhimento do paciente com suspeita de emergência respiratória deve ser imediato. Na crise asmática grave e na IRA hipoxêmica, a janela para intervenção eficaz é estreita — o atraso no reconhecimento e no início do suporte ventilatório pode evoluir rapidamente para parada respiratória. No TEP de alto risco, a trombólise sistêmica deve ser considerada com urgência. No pneumotórax hipertensivo, a descompressão imediata é a medida salvadora. A saturação de oxigênio, a frequência respiratória e o padrão ventilatório devem ser aferidos ainda no acolhimento.
A avaliação e classificação de risco constitui tecnologia complementar ao acolhimento, voltada para a priorização do atendimento com base na gravidade clínica, no potencial de risco e no grau de sofrimento do usuário. No contexto respiratório, o processo de classificação deve incorporar obrigatoriamente o tempo de início da dispneia, a saturação periférica de oxigênio (SpO₂), a frequência respiratória e a identificação de comorbidades predisponentes — como asma, DPOC, neoplasias, imobilização prolongada e cardiopatias — critérios determinantes para a elegibilidade terapêutica e para o acionamento de protocolos institucionais.
Ao substituir o critério cronológico de chegada pelo critério clínico, a classificação de risco permite identificar rapidamente os pacientes em risco iminente de falência respiratória, acionando as equipes de forma ágil e coordenada. Esse processo baseia-se em protocolos previamente estabelecidos e considera não apenas sinais clínicos objetivos, mas também aspectos como vulnerabilidade social, acesso prévio a medicações (broncodilatadores, oxigenoterapia domiciliar) e capacidade de adesão ao tratamento. Clique AQUI e veja um resumo da classificação por cores no contexto respiratório
O sistema proposto pelo Ministério da Saúde adota quatro categorias principais e foi concebido com maior flexibilidade para adaptação às realidades locais do SUS. No contexto respiratório, esse modelo integra de forma mais explícita os princípios do acolhimento — como a escuta qualificada, a aferição imediata de parâmetros vitais e a consideração do sofrimento físico e psíquico associado à dispneia.
É relevante observar que pacientes idosos, crianças pequenas e portadores de DPOC grave podem não expressar adequadamente a intensidade da sua dificuldade respiratória — seja por fadiga, por adaptação crônica à hipoxemia ou por limitações cognitivas — exigindo avaliação mais sensível, estruturada e proativa por parte dos profissionais de triagem. É recomendável, conforme protocolo institucional, a oximetria de pulso como uma extensão do exame físico no acolhimento de qualquer queixa respiratória.
Em um cenário de emergência respiratória, cada segundo importa — e cada decisão pode ser determinante para a manutenção da oxigenação e da ventilação do paciente. A avaliação clínica deve ser estruturada, sistemática e orientada por métodos validados, capazes de guiar o raciocínio do profissional mesmo diante de situações críticas e pacientes com limitações comunicativas impostas pela própria dispneia.
O profissional de enfermagem, muitas vezes na linha de frente, precisa reconhecer rapidamente os sinais de falência respiratória iminente, priorizar intervenções e acionar os protocolos institucionais cabíveis. É nesse equilíbrio entre rapidez e método que os protocolos de avaliação se tornam ferramentas indispensáveis.
A avaliação primária do paciente em emergência respiratória segue o mnemônico XABCDE, com adaptações específicas para as particularidades do comprometimento ventilatório agudo.
X - eXsanguinação
No contexto respiratório, hemorragias externas são incomuns como causa primária, mas devem ser consideradas em hemoptises volumosas — situação presente em tuberculose cavitária, neoplasias pulmonares, bronquiectasias e vasculites. O sangramento ativo das vias aéreas superiores pode comprometer diretamente a permeabilidade da via aérea e precipitar insuficiência respiratória aguda. Deve-se também atentar para o uso de anticoagulantes, que aumentam o risco e a gravidade das hemoptises.
A – Airway (vias aéreas)
A permeabilidade das vias aéreas é o ponto de partida absoluto na emergência respiratória. Obstrução por corpo estranho, edema de glote (anafilaxia), secreções espessas, broncoespasmo grave ou rebaixamento do nível de consciência por hipercapnia podem comprometer o fluxo aéreo de forma imediata e fatal.
O reflexo de tosse, a presença de estridor, o uso de musculatura acessória cervical e a posição de tripé são sinais que indicam obstrução significativa. Na presença de Glasgow ≤ 8, ausência de reflexos protetores de vias aéreas ou falência ventilatória iminente, deve-se considerar a via aérea definitiva sem demora.
B – Breathing (respiração)
A avaliação da respiração é o eixo central nas emergências respiratórias. Frequência respiratória, padrão ventilatório, uso de musculatura acessória, expansibilidade torácica, presença de sibilos, estertores ou murmúrio vesicular abolido devem ser sistematicamente avaliados. Conforme protocolo institucional, a oximetria de pulso é extensão do exame físico — SpO₂ < 90% configura hipoxemia grave e exige intervenção imediata.
Padrões específicos orientam o diagnóstico: sibilos difusos sugerem broncoespasmo (asma/DPOC); murmúrio vesicular abolido unilateralmente com timpanismo indica pneumotórax; crepitações bibasais remetem a edema pulmonar ou pneumonia extensa. A hipercapnia com rebaixamento de consciência — "narcose por CO₂" — é sinal de falência ventilatória iminente e indica suporte ventilatório urgente, mesmo com saturação aparentemente adequada.
C – Circulation (circulação)
As emergências respiratórias têm impacto cardiovascular direto e imediato. A hipoxemia grave desencadeia taquicardia compensatória, hipertensão ou, em fases avançadas, bradicardia e hipotensão — sinais de colapso iminente. No TEP de alto risco, a taquicardia sinusal persistente, a hipotensão e a distensão venosa jugular formam a tríade clássica do cor pulmonale agudo.
No pneumotórax hipertensivo, o desvio traqueal, a ausência de murmúrio vesicular unilateral e o choque obstrutivo exigem descompressão imediata — sem aguardar confirmação radiológica. A pressão arterial e a perfusão periférica devem ser monitoradas continuamente, pois a instabilidade hemodinâmica muda a estratégia terapêutica de forma determinante.
Pneumotórax Hipertensivo
Desvio traqueal + Ausência de MV unilateral + Hipotensão + Turgência jugular. Indica obstrução ao retorno venoso com colapso cardiovascular iminente. Descompressão imediata — não aguardar radiografia.
D – Disability (estado neurológico)
A avaliação neurológica na emergência respiratória reflete diretamente a adequação da oxigenação cerebral. Agitação psicomotora, confusão mental e ansiedade intensa são frequentemente os primeiros sinais de hipoxemia — e podem ser erroneamente interpretados como transtorno comportamental, retardando o diagnóstico. O rebaixamento do nível de consciência indica hipoxemia grave ou hipercapnia avançada.
A Escala de Coma de Glasgow deve ser aplicada e monitorada de forma seriada. A avaliação pupilar auxilia no diagnóstico diferencial com causas neurológicas primárias de depressão respiratória (como intoxicação por opioides — miose bilateral e puntiforme é sinal clássico).
E – Exposure (exposição e reavaliação)
A exposição no contexto respiratório deve incluir inspeção do tórax em busca de assimetrias, deformidades, cicatrizes de cirurgias torácicas prévias, enfisema subcutâneo (crepitação ao toque — sinal de pneumotórax ou barotrauma) e sinais de trauma. A avaliação de extremidades pode revelar cianose periférica, baqueteamento digital (doença pulmonar crônica) e edema de membros inferiores sugestivo de trombose venosa profunda e TEP. A reavaliação contínua dos parâmetros respiratórios — SpO₂, FR, padrão ventilatório e nível de consciência — é indispensável para monitorar deterioração ou resposta ao tratamento instituído.
A avaliação secundária inclui a realização sistematizada do SAMPLA, conduzida com o paciente — quando este apresenta condições de comunicação, o que frequentemente não ocorre na dispneia grave — ou com familiares, acompanhantes ou equipe do SAMU. O tempo de início da dispneia, a velocidade de instalação e os fatores desencadeantes são as informações mais críticas dessa etapa.
S – Sinais vitais
Nas emergências respiratórias, os sinais vitais fornecem informações essenciais para a estratificação de risco. A frequência respiratória é o parâmetro mais sensível de deterioração — e frequentemente o mais negligenciado. Febre sugere etiologia infecciosa (pneumonia, bronquite bacteriana, abscesso) e aumenta a demanda ventilatória.
Taquicardia persistente após oferta de oxigênio deve levantar suspeita de TEP. A glicemia capilar é relevante, pois tanto a hipo quanto a hiperglicemia agravam a função respiratória em pacientes críticos. A pressão arterial deve ser interpretada em conjunto: hipotensão com hipoxemia configura choque distributivo (sepse pulmonar) ou obstrutivo (TEP, pneumotórax hipertensivo).
A - Alergias
No contexto respiratório, as alergias de maior relevância são às penicilinas e cefalosporinas (utilizadas no tratamento de pneumonias), ao látex (presente em máscaras e equipamentos de ventilação), a anti-inflamatórios não esteroidais — que podem precipitar broncoespasmo grave em pacientes com asma sensível à aspirina (Tríade de Samter) — e ao contraste iodado utilizado na angiotomografia de tórax para diagnóstico de TEP.
M - Medicamentos
O registro dos medicamentos em uso é determinante nas emergências respiratórias. Betabloqueadores podem precipitar broncoespasmo grave em asmáticos e agravar o DPOC. Inibidores da ECA são causa frequente de tosse seca crônica e, raramente, de angioedema com obstrução de vias aéreas. O uso irregular de broncodilatadores e corticoides inalatórios é fator de risco para crises asmáticas graves.
Anticoagulantes em uso orientam a conduta no TEP confirmado. Opioides e benzodiazepínicos podem causar depressão respiratória central. A dose e a última utilização de broncodilatador de resgate (salbutamol) fornecem informação sobre a gravidade e a refratariedade da crise.
P - Passado médico
O histórico médico prévio é eixo determinante na estratificação do risco respiratório. Asma brônquica, DPOC, bronquiectasias, fibrose pulmonar, neoplasia pulmonar, insuficiência cardíaca, cardiopatias com hipertensão pulmonar, trombose venosa profunda prévia, TEP anterior, imobilização prolongada, neoplasias ativas, estados de hipercoagulabilidade, tabagismo e obesidade elevam substancialmente a probabilidade de emergência respiratória grave. Hospitalizações anteriores por crise respiratória — especialmente com necessidade de ventilação mecânica invasiva — definem paciente de alto risco e padrão de gravidade habitual, imprescindível para comparação com o quadro atual.
L - Last meal (última refeição)
A identificação do horário da última refeição é relevante pois procedimentos como intubação orotraqueal, ventilação mecânica invasiva, broncoscopia de urgência ou sedação para ventilação não invasiva requerem via aérea protegida. O jejum inadequado aumenta substancialmente o risco de broncoaspiração — complicação que, em um paciente já com comprometimento respiratório grave, pode ser fatal. Em pacientes com dispneia intensa, a dificuldade para se alimentar nas últimas horas também é um indicador indireto de gravidade da crise.
A - Ambiente
A análise do ambiente e das circunstâncias do evento é essencial para o diagnóstico etiológico. Dispneia de início súbito durante refeição ou em criança levanta suspeita de corpo estranho em vias aéreas. Dispneia após longo período de imobilização (viagem aérea, cirurgia recente, repouso no leito) orienta para TEP. Exposição a alérgenos conhecidos, picadas de inseto ou ingestão de alimentos alergênicos precedendo urticária e broncoespasmo define anafilaxia.
Ambientes com fumaça, gases tóxicos ou produtos químicos sugerem inalação de substâncias irritantes. Dispneia progressiva em contexto de infecção respiratória recente pode indicar evolução para pneumonia grave ou síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA). O contexto domiciliar — presença de animais, mofo, poeira, produtos de limpeza — é relevante para identificar gatilhos alérgicos e ocupacionais.
O método OPQRST, amplamente utilizado na avaliação da dor, é igualmente aplicável — com adaptações — à avaliação dos sintomas respiratórios, incluindo dispneia, tosse, sibilância, dor torácica e hemoptise.
O (Onset – início)
No contexto respiratório, o modo de início é altamente discriminativo. O pneumotórax espontâneo e o TEP tipicamente se apresentam com dispneia de início súbito, atingindo intensidade máxima em segundos a poucos minutos — o paciente frequentemente consegue indicar com precisão o momento exato.
Dispneia de instalação progressiva em horas a dias sugere pneumonia, derrame pleural ou exacerbação de DPOC. Dispneia episódica, recorrente e com recuperação entre as crises é característica da asma brônquica. A dispneia de início abrupto durante esforço ou imobilização prolongada, associada a dor pleurítica, é o quadro clássico do TEP até prova em contrário.
P (Provocation/Palliation – provocação ou alívio)
Na avaliação respiratória, investiga-se se os sintomas pioram com esforço físico, decúbito (ortopneia sugere insuficiência cardíaca ou derrame pleural volumoso), exposição a alérgenos, mudanças climáticas, ar frio, fumaça ou irritantes inalatórios.
A dispneia que melhora significativamente com broncodilatador de resgate aponta para componente obstrutivo reversível (asma/DPOC). A dispneia que alivia apenas na posição sentada ou em ortostase sugere congestão pulmonar. A piora noturna e nas primeiras horas da manhã é padrão clássico da asma. A ausência de melhora com qualquer medida, associada à deterioração progressiva, indica gravidade extrema e necessidade de suporte ventilatório imediato.
Q (Quality – qualidade)
A qualidade da dispneia e dos sintomas associados oferece pistas diagnósticas importantes. Dispneia com sibilância expiratória predominante indica obstrução de vias aéreas inferiores (asma, DPOC). Estridor inspiratório aponta para obstrução de vias aéreas superiores (corpo estranho, edema de glote, anafilaxia). Dispneia associada a dor torácica ventilatório-dependente (pleurítica) — que piora à inspiração profunda e à tosse — sugere pneumotórax, pleurite ou TEP.
Sensação de aperto torácico difuso com sibilância remete à crise asmática. Tosse produtiva com expectoração purulenta orienta para infecção respiratória (pneumonia, bronquite bacteriana). Hemoptise com dispneia progressiva levanta suspeita de neoplasia pulmonar, tuberculose ou TEP com infarto pulmonar.
R (Region/Radiation – região e irradiação)
A localização e a irradiação dos sintomas respiratórios permitem inferências sobre a topografia do comprometimento. Dor pleurítica localizada, com murmúrio vesicular abolido e timpanismo ipsilateral, sugere pneumotórax. Dor torácica posterior com irradiação para o dorso pode indicar derrame pleural extenso ou comprometimento parenquimatoso posterior. Sibilância difusa bilateral indica obstrução generalizada das vias aéreas (asma, DPOC).
Crepitações bibasais simétricas sugerem edema pulmonar cardiogênico ou pneumonia bilateral. Murmúrio vesicular abolido em base unilateral com macicez à percussão orienta para derrame pleural ou atelectasia lobar. A irradiação de dor torácica para o membro superior esquerdo ou mandíbula deve levantar o diagnóstico diferencial com síndrome coronariana aguda — causa cardiovascular de dispneia que não deve ser negligenciada.
S (Severity – intensidade)
A intensidade da dispneia deve ser quantificada por instrumentos validados. A Escala de Dispneia do MRC (Medical Research Council) avalia a limitação funcional em cinco graus — do grau 0 (sem dispneia aos esforços habituais) ao grau 4 (dispneia ao repouso ou aos mínimos esforços).
Para a avaliação objetiva da gravidade na crise aguda, utilizam-se parâmetros fisiológicos: SpO₂, frequência respiratória, capacidade de falar em frases completas e uso de musculatura acessória. No TEP, o Escore de Wells e o Escore PESI estratificam o risco de mortalidade. Na pneumonia associada à exacerbação do DPOC, o CURB-65 pode auxiliar na decisão de internação. A dispneia referida como "a pior da vida", de início súbito e associada a hipoxemia grave, deve ser tratada como emergência máxima até que causa grave seja excluída.
T (Time – tempo ou evolução)
O tempo é variável crítica nas emergências respiratórias. Deve-se documentar: horário de início da dispneia ou do evento desencadeante; tempo de chegada à unidade; tempo até avaliação clínica e oximetria; tempo até oferta de oxigênio suplementar; tempo até administração de broncodilatador (na crise asmática, o alvo é a primeira dose em até 20 minutos da chegada); e tempo até decisão sobre suporte ventilatório — não invasivo (VNI) ou invasivo.
No TEP de alto risco com instabilidade hemodinâmica, o tempo até a trombólise sistêmica é determinante para a sobrevida. A evolução temporal dos sintomas — piora progressiva vs. estabilização vs. resposta ao tratamento — orienta as decisões terapêuticas e define a necessidade de escalonamento do suporte respiratório.
A triagem de emergências respiratórias é uma das etapas mais críticas do atendimento na UPA. Falhas nesse processo podem resultar em deterioração ventilatória irreversível, parada respiratória e morte — desfechos que, em grande parte dos casos, seriam evitáveis com reconhecimento precoce e classificação adequada. A redução desses erros depende de capacitação contínua da equipe, uso rigoroso dos protocolos institucionais, reconhecimento dos diagnósticos diferenciais e valorização dos sintomas atípicos. Vejamos mais detalhadamente cada um dos erros mais comuns durante a triagem:
A subclassificação é o erro mais grave e frequente nas emergências respiratórias. Manifestações atípicas de insuficiência respiratória — como confusão mental, agitação psicomotora, fadiga intensa, taquicardia isolada ou queda da saturação sem dispneia referida — frequentemente não são reconhecidas como sinais de falência ventilatória iminente, especialmente em idosos, obesos, pacientes com DPOC avançado e portadores de doenças neuromusculares, que podem não expressar adequadamente a intensidade do desconforto respiratório por adaptação crônica à hipoxemia ou por fadiga da musculatura ventilatória.
O TEP representa armadilha especialmente perigosa: por definição, pode se apresentar de forma silenciosa — com dispneia leve, taquicardia isolada ou síncope — sem o quadro clássico de dor pleurítica e hemoptise. Pacientes que chegam aparentemente estáveis após episódio sincopal ou com queixa de "cansaço" tendem a ser subclassificados, quando na realidade podem estar em colapso hemodinâmico iminente por obstrução maciça da circulação pulmonar. Todo episódio de dispneia aguda inexplicada deve ser investigado com rigor até que a causa grave seja afastada.
Exemplos frequentes de subclassificação:
Agitação psicomotora por hipoxemia classificada como "transtorno comportamental" sem oximetria realizada;
Idoso com DPOC avançado e SpO₂ de 88% classificado como verde por "ser o valor habitual dele" sem avaliação clínica estruturada;
Taquicardia sinusal persistente após imobilização prolongada classificada como "ansiedade" sem investigação de TEP;
Crise asmática leve com sibilância discreta classificada como verde, sem reconhecimento do potencial de deterioração rápida.
A superclassificação também ocorre no contexto respiratório, sobretudo quando o profissional se deixa guiar pelo relato dramático de familiares ou pela presença de sintomas que imitam emergência respiratória — os chamados "respiratory mimics".
Crises de hiperventilação por ansiedade ou síndrome do pânico, dor musculoesquelética torácica, refluxo gastroesofágico com pirose intensa e dispneia funcional podem mimetizar emergências respiratórias graves e resultar em mobilização desnecessária de recursos e retardo no atendimento de casos reais.
Embora a superclassificação seja clinicamente menos grave do que a subclassificação nesse contexto, ela impacta a disponibilidade de recursos, sobrecarrega a equipe e pode gerar exposição desnecessária do paciente a procedimentos invasivos. O antídoto é a avaliação estruturada com oximetria imediata, aferição da frequência respiratória e aplicação de parâmetros objetivos de gravidade — nunca classificar com base exclusivamente no relato subjetivo de angústia do paciente ou do acompanhante.
A não aferição da oximetria de pulso na triagem é um erro crítico, pois a hipoxemia grave pode estar presente mesmo em pacientes que não referem dispneia intensa — especialmente idosos, diabéticos e pacientes com DPOC cronicamente adaptados à hipoxemia. A ausência de aferição da frequência respiratória — parâmetro mais sensível de deterioração ventilatória — é igualmente grave e frequente.
A não identificação do tempo de início da dispneia compromete a avaliação da velocidade de progressão e a elegibilidade para intervenções precoces. A omissão da ausculta pulmonar pode retardar o reconhecimento de pneumotórax, broncoespasmo grave ou derrame pleural extenso. A não investigação de fatores desencadeantes — exposição a alérgenos, uso de medicamentos, imobilização prolongada — deixa passar diagnósticos tratáveis com intervenção imediata.
A classificação de risco não encerra a avaliação do paciente respiratório. A condição clínica é dinâmica e pode se modificar rapidamente. Pacientes inicialmente estáveis podem evoluir com aumento do trabalho respiratório, fadiga, alteração do nível de consciência ou piora da oxigenação. Por isso, a identificação inicial deve ser seguida de monitorização e reavaliação periódica, especialmente após qualquer intervenção terapêutica.
No contexto respiratório, a falha na escuta qualificada tem uma dimensão adicional: o paciente com dispneia grave frequentemente não consegue completar frases, está ansioso, agitado ou com nível de consciência rebaixado por hipercapnia — o que dificulta ou impossibilita a comunicação direta.
O profissional deve estar preparado para conduzir a avaliação com o acompanhante, interpretar sinais não verbais de desconforto respiratório (expressão facial de esforço, posição de tripé, movimentação paradoxal do tórax) e adaptar as perguntas à capacidade comunicativa do paciente.
A interrupção precoce do familiar que está relatando a história pode resultar na perda de informações essenciais sobre o tempo de início, os fatores desencadeantes, o histórico de crises anteriores e o uso de medicamentos de resgate — dados que orientam diretamente a conduta terapêutica.
A insuficiência respiratória é uma condição dinâmica e potencialmente explosiva: o paciente pode deteriorar rapidamente durante a espera, com progressão do broncoespasmo, fadiga da musculatura ventilatória, retenção de CO₂ e evolução para parada respiratória.
A ausência de monitoramento contínuo na sala de espera — com reavaliação periódica de SpO₂, frequência respiratória, padrão ventilatório e nível de consciência — pode fazer com que pacientes inicialmente estáveis evoluam para insuficiência respiratória grave sem detecção precoce. O protocolo de reavaliação deve ser estruturado e documentado com intervalo máximo de 15 a 30 minutos para pacientes classificados como urgentes com queixa respiratória ativa, independentemente da aparente estabilidade inicial.
No contexto das emergências respiratórias, a comunicação estruturada e o registro preciso são críticos para a continuidade e segurança do cuidado. A ausência do tempo de início da dispneia documentado, a omissão do valor da SpO₂ na triagem, a falta de registro do uso de broncodilatadores prévios ou a não anotação de alergias relevantes (como sensibilidade a AINEs em asmáticos) podem atrasar ou comprometer intervenções decisivas.
O acionamento da equipe multiprofissional — médico, fisioterapeuta respiratório, equipe de terapia intensiva — deve ser comunicado de forma direta, objetiva e com uso de linguagem padronizada pelo protocolo institucional, especialmente nos casos de falência ventilatória iminente que demandam decisão rápida sobre ventilação não invasiva ou intubação orotraqueal.