As urgências cardiovasculares figuram entre as principais causas de morbimortalidade nos serviços de urgência e emergência, exigindo reconhecimento precoce, tomada de decisão rápida e intervenções imediatas baseadas em prioridades clínicas. Nessas situações, o tempo é um fator determinante para o prognóstico, e a atuação da equipe de enfermagem assume papel central na identificação de sinais de gravidade, na estabilização inicial e na prevenção de complicações potencialmente fatais.
O enfermeiro, respaldado pela Lei do Exercício Profissional (Lei nº 7.498/1986) e pela Resolução COFEN nº 564/2017 (Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem), detém autonomia técnico-científica e responsabilidade legal para liderar o processo de cuidar nos cenários de urgência e emergência. Sua atuação não se limita à execução de procedimentos: envolve raciocínio clínico avançado, gerenciamento de equipe, comunicação interprofissional e tomada de decisão fundamentada em evidências.
A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), regulamentada pela Resolução COFEN nº 358/2009, constitui o instrumento metodológico que orienta e confere cientificidade ao cuidado prestado nesse contexto, estruturando a prática em etapas interdependentes e complementares.
O planejamento da assistência de enfermagem no contexto cardiovascular deve ser estruturado a partir de uma avaliação clínica sistematizada e contínua, considerando a manutenção da estabilidade hemodinâmica, da perfusão tecidual e da oxigenação adequada.
O enfermeiro deve estabelecer prioridades com base na identificação precoce de sinais de instabilidade (como: sinais de lesão de órgão-alvo, dor torácica, baixo débito cardíaco ou arritmias) e intervenções direcionadas à prevenção de agravos e complicações. É preciso definir objetivos claros, como redução pressórica segura, realização de ECG, controle de volemia etc.
Assim, esse planejamento deve contemplar a monitorização rigorosa dos sinais vitais, o preparo para intervenções rápidas, a previsão de recursos necessários e a organização do cuidado conforme a gravidade do paciente, garantindo uma assistência segura, oportuna e baseada em evidências.
O planejamento deve incorporar, obrigatoriamente, a elaboração dos diagnósticos de enfermagem, que direcionam as prescrições de enfermagem de forma individualizada.
Exemplos frequentes nas urgências cardiovasculares incluem: Débito cardíaco diminuído, Perfusão tissular ineficaz, Dor aguda, Padrão respiratório ineficaz e Ansiedade. Cada diagnóstico fundamenta intervenções mensuráveis, com resultados esperados definidos e as intervenções, favorecendo a integração do processo de enfermagem ao cuidado multiprofissional.
Além disso, o planejamento deve prever a estratificação de risco do paciente desde a triagem, utilizando ferramentas validadas como o Protocolo de Manchester ou A Escala de MEWS (Modified Early Warning Score), que permitem identificar precocemente pacientes com potencial de deterioração clínica e acionar respostas proporcionais à gravidade.
A antecipação de cenários — como a necessidade de cardioversão elétrica, intubação orotraqueal ou acesso venoso central — é parte essencial de um planejamento de qualidade.
A organização da assistência envolve a adequada disposição de recursos humanos, materiais e tecnológicos necessários ao cuidado cardiovascular. O enfermeiro deve assegurar a disponibilidade de equipamentos para monitorização contínua, acesso venoso, ECG, cardioversão/desfibrilação, suporte ventilatório e administração de terapias (AAS, nitratos, adenosina, furosemida etc), além de estruturar o ambiente de forma a favorecer a vigilância constante e a resposta rápida a intercorrências.
A organização também inclui o estabelecimento de fluxos assistenciais eficientes (exames, transferências, RCP), comunicação clara entre a equipe multiprofissional e a padronização de protocolos, permitindo maior agilidade no atendimento e redução de riscos ao paciente.
Um aspecto fundamental da organização é a manutenção de checklists e carros de emergência devidamente equipados e revisados periodicamente, conforme as recomendações da American Heart Association (AHA) e dos protocolos institucionais. O carro de emergência deve conter medicamentos para suporte avançado de vida cardiovascular (ACLS), materiais para via aérea avançada, desfibrilador com monitor multiparamétrico calibrado e kits para acesso venoso central e periférico.
A conferência diária desses recursos, com registro em formulários próprios, é responsabilidade do enfermeiro e integra a cultura de segurança do paciente preconizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).
O dimensionamento adequado da equipe também compõe a dimensão organizacional: pacientes críticos cardiovasculares, especialmente aqueles em choque cardiogênico, edema agudo de pulmão grave ou parada cardiorrespiratória (PCR) iminente, exigem proporção técnico/paciente compatível com a complexidade do cuidado, conforme a Resolução COFEN nº 543/2017. O enfermeiro gestor deve articular junto à coordenação de enfermagem a alocação dinâmica de profissionais conforme o censo e a gravidade do setor.
A coordenação da assistência de enfermagem cardiovascular exige liderança ativa do enfermeiro na integração das ações da equipe, garantindo que todas as intervenções ocorram de forma sincronizada e segura. Cabe ao enfermeiro supervisionar a execução das atividades, distribuir tarefas conforme a complexidade do cuidado e assegurar a comunicação efetiva entre os profissionais.
Além disso, é fundamental articular o cuidado com outros setores e níveis de atenção, promovendo continuidade assistencial e tomada de decisão rápida diante de alterações clínicas, sempre com foco na segurança e na qualidade do atendimento.
A adoção de ferramentas de comunicação estruturada é uma estratégia comprovadamente eficaz na coordenação das urgências cardiovasculares. O método SBAR (Situation, Background, Assessment, Recommendation — Situação, Contexto, Avaliação e Recomendação) padroniza a passagem de informações críticas entre os membros da equipe e nas transferências de cuidado, reduzindo erros de comunicação e otimizando o tempo de resposta.
Durante eventos como PCR, o enfermeiro coordenador da reanimação deve assumir papel de liderança clara, designando funções (compressões, ventilação, medicamentos, registro, tempo), evitando duplicidade de ações e garantindo a qualidade da RCP segundo as diretrizes vigentes. A coordenação intersetorial — com laboratório, radiologia, banco de sangue, cardiologia intervencionista e unidade de terapia intensiva — é igualmente crítica e deve seguir fluxos pré-definidos e tempos-alvo (como o tempo porta-balão de até 90 minutos no infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento de ST). O enfermeiro deve conhecer esses protocolos.
A execução da assistência deve ser realizada de forma técnica, precisa e contínua, contemplando intervenções como monitorização hemodinâmica, avaliação clínica frequente, manutenção de acessos venosos, administração segura de medicamentos e suporte à oxigenação (principalmente na IC descompensada).
O enfermeiro e sua equipe devem atuar de maneira vigilante, identificando precocemente sinais de deterioração clínica, como alterações do ritmo cardíaco, perfusão inadequada ou instabilidade dos sinais vitais. A execução também envolve cuidados relacionados ao conforto, controle da dor, redução da ansiedade e posicionamento adequado do paciente, contribuindo para a diminuição da demanda metabólica cardiovascular.
Na prática, a execução das intervenções de enfermagem cardiovascular deve seguir os cinco certos da administração de medicamentos — paciente certo, medicamento certo, dose certa, via certa e horário certo —, acrescidos de outros elementos de segurança como a checagem de alergias, compatibilidade de soluções e velocidade de infusão. Drogas vasoativas, antiarrítmicos e anticoagulantes requerem atenção redobrada, sendo obrigatório o uso de bombas de infusão programáveis e a dupla checagem por dois profissionais em situações de alto risco.
A coleta de histórico de enfermagem e anamnese dirigida deve ser realizada de forma objetiva e paralela às intervenções imediatas, contemplando: início e características da queixa principal, antecedentes cardiovasculares, uso de medicamentos (especialmente anticoagulantes, antiarrítmicos, diuréticos e betabloqueadores), alergias, última refeição e nível funcional prévio. Essas informações orientam decisões terapêuticas críticas e integram a notificação à equipe médica.
O posicionamento terapêutico também integra a execução: pacientes com insuficiência cardíaca descompensada beneficiam-se de decúbito elevado a 45°, que reduz o retorno venoso e o trabalho respiratório; aqueles em choque devem ter os membros inferiores elevados (posição de Trendelenburg modificada) para otimizar o débito cardíaco, salvo contraindicações. O controle do ambiente — iluminação, temperatura, ruído e privacidade — reduz o estresse e o consumo de oxigênio pelo miocárdio.
A avaliação da assistência de enfermagem cardiovascular deve ser contínua e baseada na análise da resposta clínica do paciente às intervenções realizadas. O enfermeiro deve reavaliar sistematicamente os parâmetros hemodinâmicos, a perfusão tecidual, o nível de consciência e a evolução geral do quadro clínico, ajustando o plano de cuidados conforme necessário.
Além disso, a avaliação inclui o registro detalhado das ações e respostas do paciente, permitindo rastreabilidade, continuidade da assistência e suporte à tomada de decisão clínica. Esse processo garante a melhoria contínua da qualidade do cuidado e a prevenção de complicações.
O processo avaliativo deve ser orientado por indicadores clínicos mensuráveis, como: pressão arterial e frequência cardíaca dentro das metas terapêuticas, saturação de oxigênio igual ou superior a 94%, diurese igual ou superior a 0,5 mL/kg/hora, ausência de novos episódios de dor torácica, melhora do nível de consciência e estabilização do ritmo cardíaco. A documentação sistemática em prontuário eletrônico ou físico deve registrar o tempo de cada intervenção, a resposta obtida e as condutas subsequentes, assegurando rastreabilidade e embasamento para auditorias clínicas.
A notificação de eventos adversos e near misses (quase-erros) é uma dimensão essencial da avaliação e da cultura de segurança institucional. O enfermeiro tem papel ativo na identificação e registro desses eventos nos sistemas de notificação (como o VigiHosp/NOTIVISA), contribuindo para a análise de causas-raiz e para a implementação de barreiras de prevenção. A avaliação da assistência não se encerra no nível individual: deve alimentar indicadores setoriais de qualidade, como taxa de PCR intra-hospitalar, tempo-resposta das equipes e conformidade com protocolos institucionais.
A atuação da enfermagem nas urgências cardiovasculares não se restringe às intervenções técnicas e gerenciais. A comunicação terapêutica com o paciente e seus familiares constitui dimensão indispensável do cuidado humanizado e integral. Em situações de crise cardiovascular, o medo, a dor e a incerteza elevam o nível de ansiedade e podem prejudicar a adesão ao tratamento e a cooperação do paciente durante os procedimentos.
O enfermeiro deve adotar uma linguagem acessível, empática e clara ao explicar os procedimentos que serão realizados, o objetivo das intervenções e o estado clínico do paciente — respeitando os limites éticos e o sigilo profissional. O acolhimento da família, com informações periódicas e suporte emocional, reduz o sofrimento e favorece a tomada de decisão compartilhada, especialmente em situações de maior gravidade.
Ainda que o momento agudo limite o espaço para educação em saúde aprofundada, o enfermeiro deve iniciar orientações básicas sobre reconhecimento de sinais de alerta (dor torácica, falta de ar, palpitações), uso correto de medicamentos e importância da adesão ao acompanhamento ambulatorial, contribuindo para a prevenção de novos eventos e para a continuidade do cuidado após a alta hospitalar.